O idoso e as novidades: ampliar qualidade assistencial, incorporar novas tecnologias e reduzir custo

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A transição demográfica e a epidemiológica trouxeram a ampliação do contingente de idosos e a maior pressão fiscal sobre os sistemas de saúde público e privado. Como essa parcela da população ampliam-se, aumentam as doenças crônicas e um dos resultados é a demanda crescente por serviços de saúde. As doenças que acometem os idosos são majoritariamente crônicas e múltiplas, as internações hospitalares tornam-se mais frequentes e o tempo de ocupação do leito é maior se comparado com outras faixas etárias.
Envelhecer com qualidade de vida exige um novo modelo de cuidado. Uma das mais atuais e relevantes discussões no campo do envelhecimento humano se refere ao modelo assistencial. As transições demográfica e epidemiológica do Brasil proporcionaram uma melhoria dos indicadores em comparação com décadas passadas. Há, por outro lado, consequências preocupantes com a ampliação do contingente de idosos, o que provoca maior pressão fiscal sobre os sistemas de saúde público e privado (3). Se essa parcela da população aumenta, ampliam-se as doenças crônicas e um dos resultados é a demanda crescente por serviços de saúde, o que pode resultar em escassez ou restrição de recursos. As doenças que acometem os idosos são majoritariamente crônicas e múltiplas. As internações hospitalares tornam-se mais frequentes e o tempo de ocupação do leito é maior se comparado com as demais faixas etárias. Este é o nosso desafio atual.
O que buscamos é um modelo assistencial resolutivo e de excelente relação custo-benefício. A proposta que apresento neste artigo é inovadora e mostra como o cuidado deve ser prestado a esse grupo etário, com adequada coordenação e uso das ferramentas contemporâneas de terapia e de apoio ao diagnóstico, ampliando a qualidade e obtendo redução de custos.
Sabemos que o mundo mudou após a pandemia de covid-19 e que essa mudança afetou profundamente os idosos. Na atual crise mundial da saúde, aprendemos a importância do conhecimento, da ciência e de novas estratégias para lidar com uma doença sobre a qual ainda sabemos muito pouco. Ficou absolutamente clara a importância do cuidado, da promoção e da prevenção da saúde, além da tecnologia para uso nas consultas, no monitoramento e nas informações – em síntese, na coordenação dos novos cuidados.
Qual a lógica desse novo modelo de cuidado?
Os modelos integrados buscam resolver o problema dos cuidados fragmentados e mal coordenados nos atuais sistemas de saúde. Uma das maiores conquistas da humanidade foi a ampliação do tempo de vida. Chegar à velhice – antes privilégio de poucos – passou a ser a norma mesmo nos países menos desenvolvidos. Um dos resultados dessa mudança é a demanda crescente por serviços de saúde. As doenças que acometem os idosos são majoritariamente crônicas e múltiplas, exigem acompanhamento constante e cuidados permanentes. Deste modo, deveria haver uma organização no modelo para se evitar observa-se um excesso de consultas, particularmente as realizadas por vários médicos especialistas. Pelo fato desses pacientes possuírem múltiplas doenças crônicas, fica evidente que priorizar apenas uma doença, em detrimento das demais, não é a medida mais adequada. A melhor opção é estruturar modelos que funcionem de modo integrado e consigam dar conta de toda a gama de necessidades. Se não for assim, o problema dificilmente será resolvido, pois as demais doenças e suas fragilidades serão mantidas. Além disso, os recursos serão utilizados inadequadamente. Por estes motivos as internações hospitalares tornam-se mais frequentes e o tempo de ocupação do leito é maior se comparado com outras faixas etárias (54) , ou seja, há um excesso de atendimentos desarticulados e realizados por vários profissionais que não se comunicam e que o sistema de informação não registram estas várias consultas.
Por este motivo, no modelo que propomos, a ênfase é conferida aos idosos sadios ou ainda nos estágios iniciais das doenças crônicas e com a capacidade funcional plena. Nas instâncias leves de cuidado (8), o idoso poderá ser acompanhado por seu médico assistente, aquele tradicional médico de família – ou, como no modelo inglês, o chamado “general practitioner . A estratégia visa melhorar a qualidade assistencial, através do cuidado amplo das demandas e com isto reduzir os custos para esse grupo etário (9,13 e 17).
No cuidado da pessoa idosa, dá-se grande valor a situações que não são propriamente doenças, à diferença do que ocorre nas demais especialidades médicas. Essa característica é observada nesse novo modelo?
O equívoco provavelmente está nas especialidades médicas que consideram apenas a doença como seu campo de ação, em vez de compreender o universo de questões que fazem parte do cuidado para restabelecimento de uma boa condição de saúde.
A saúde é definida como uma medida da capacidade individual de realização de aspirações e satisfação das necessidades, independentemente da idade ou da presença de doenças. Assim, uma avaliação geriátrica eficiente e completa a custos razoáveis torna-se cada vez mais importante. Seus objetivos são o diagnóstico precoce de enfermidades e a orientação de serviços de apoio sempre que necessário, para evitar internações hospitalares. A história, o exame físico e o diagnóstico diferencial tradicional não são suficientes para um levantamento extenso das diversas funções necessárias à vida do idoso. Na geriatria, a autonomia – capacidade individual de decisão e comando sobre suas ações, estabelecendo e seguindo as próprias convicções – e a independência – capacidade de realizar algo com os próprios meios – permitem que o indivíduo cuide de si e da sua vida.
Embora independência e autonomia estejam intimamente relacionadas, são conceitos distintos. Existem pessoas com dependência física, mas capazes de decidir as atividades de seu interesse; por outro lado, há aquelas com condições físicas para realizar determinadas tarefas do cotidiano, porém incapazes de decidir com segurança como, quando e onde executá-las. Deste modo, a determinação das condições de saúde da população idosa deve considerar seu estado global, ou seja, levar em conta um nível satisfatório de independência funcional e não apenas a ausência de doença.
Pensa-se como paradigma de saúde do idoso a ideia de funcionalidade, que passa a ser um dos mais importantes atributos do envelhecimento humano, pois envolve a interação entre as capacidades física e psico-cognitiva para realização de atividades no cotidiano.
As doenças crônicas apresentam uma ou mais das seguintes características: são permanentes, produzem incapacidade ou deficiências, são causadas por alterações patológicas irreversíveis e precisam de períodos longos de supervisão, observação ou cuidados. Em geral, começam lentamente, sem uma causa única. O tratamento envolve mudanças no estilo de vida e cuidados contínuos que não costumam levar à cura, mas permitem manter a enfermidade sob controle e melhorar a qualidade de vida do paciente, de modo a impedir ou amenizar seu declínio funcional.
Grande parte das doenças crônicas está relacionada à idade, a maus hábitos alimentares, sedentarismo e estresse, por isso a maioria delas pode ser prevenida ou postergada. Significa dizer que, apesar da doença, é possível ter uma vida plena por mais tempo.
Um modelo contemporâneo de saúde do idoso precisa reunir um fluxo de ações de educação, promoção da saúde, prevenção de doenças evitáveis, postergação de moléstias, cuidado precoce e reabilitação de agravos.
Transformar a lógica do cuidado em saúde no Brasil é um grande desafio e uma necessidade. E ganha uma relevância ainda maior quando se fala da atenção à saúde de pessoas em situações de maior vulnerabilidade, como é o caso dos idosos. Esse tipo de mudança e inovação precisa ser construído no cotidiano dos serviços, na formação dos profissionais de saúde, na forma como o sistema de saúde é gerido e organizado, assim como em seu financiamento. Não podemos falar de reorganização da prestação dos serviços sem discutir modelos de remuneração, pois um determina
o outro. É preciso enfrentar esse debate para avançar em direção a uma maior qualidade do cuidado em saúde e para que seja possível remunerar de forma adequada.
Renato Veras

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By 8 Arroba